Beleza

Autor: André Alves

 

E foi de chofre

todo atabalhoado

que ele sequer lhe perguntou o nome…

apenas sorriu

e nunca mais a viu…

na hora se sentiu

pequeno perto da exuberância

Eis que era deus(a) quem lhe apareceu.

Mas só depois soube disto.

E passou a chamá-la de Beleza.

E a perseguiu a vida toda, mas ainda não a achou.

Está à procura.

Quando pensa que é, acorda e

se dá conta que não.

Talvez nunca encontrará,

mas se anima todo sábado à noite…

É persistente.

O problema é que ela anda se disfarçando.

O confunde.

Melhor deixar a luz apagada.

Assim pode melhor ser vista.

“Vista-se rápido!

Vai-te embora!”

Ah…

Acho que era ela de novo não.

A beleza fugiu,

Só aparece a depressão,

Cigarro na boca,

E outro na mão.

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A Infidelidade do super-homem

André Alves

mudança_infidelidade.jpgUma das coisas das quais desisti nos últimos anos é o esforço para ser coerente. Admiti a contradição na minha vida, até como característica da minha personalidade. Mas não pense o leitor, que isso se deva a uma falta de caráter ou uma acomodação (Quiçá esquizofrenia?). Antes, trata-se do direito que me dou em mudar de ideia, ou melhor, do direito de mudar.

Isto quer dizer, que acho completamente justo querer fazer diferente do que já fiz, falar diferente do que falei, de não ser fiel, inclusive a mim mesmo. Mas esta falta de fidelidade não quer dizer que eu seja favorável a deslealdade ou a desonestidade, ou que sou um mentiroso e que ninguém pode contar comigo. Nada disso. Ao contrário, quando estou envolvido em algo, procuro estar de forma sincera, integral e verdadeira. O que não significa que preciso ser o mesmo o tempo todo. Na verdade, ninguém é.

Há pessoas que não têm a coragem de mudar, por isso são infiéis a si mesmas e cultivam a hipocrisia perante os demais. Amam a burocracia. Se mantém do mesmo jeito, porque abraçou um suposto essencialismo. Porém, como bem ilustra o rio heraclitiano “nenhum homem banha duas vezes no mesmo rio”, afinal no dia seguinte as águas não são mais as mesmas e tampouco o homem de hoje será o mesmo de ontem. Na filosofia, chamamos esse con

sartre-jovem

Jean-Paul Sartre (1905-1980), fiósofo francês existencialista.

stante vir-a-ser de devir. E foi-se o tempo que a substância aristotélica imutável e essencialista fizesse parte de um pensamento sofisticado. Depois de Nietzsche, e especialmente a partir do existencialismo do filósofo francês Jean-Paul Sartre, “a existência precede a essência”, e, portanto, o homem nada mais é do que “o conjunto de suas ações”. Pensar a partir de essências transcendentes, metafísicas, pre-definidas e imutáveis é completamente anacrônico filosoficamente falando.

Quem me conhece sabe que o que eu disse ontem, pode ser bastante contraditório ao que disse hoje. E não tenho vergonha nenhuma de admitir isto. Ao contrário do que pensava o sociólogo polonês Zygmunt Bauman que morreu esses dias e que criticava o mundo líquido por sua liquidez, eu não acho que devamos ver a fluidez da chamada pós-modernidade de maneira tão pessimista e negativa assim não. Até bem pouco tempo atrás, as pessoas se obrigavam a ficar num mesmo casamento infeliz até a morte, hoje o divórcio é plenamente admissível. Aliás, até namoros fixos e duradouros já não andam sendo mais tão interessantes.

Mas você é a favor do descompromisso, André? Sou a favor da liberdade de ser e de deixar de ser. Se as relações forem sinceras e agradáveis aos lados, não vejo nenhum problema em mantê-las. Mas estar junto simplesmente porque as coisas precisam ser para sempre, definitivamente não faz o menor sentido. Já disse o poeta Vinícius de Moraes “O amor que seja eterno enquanto dure”. Então você é a favor da frivolidade? Eu responderia, que não precisamos olhar o frívolo de maneira tão negativa e moralista. A própria vida é frívola. Entretanto, ao falar do direito de mudar penso isto e um pouco além.

Em época de gêneros fluidos, de “trans-isto” e “trans-aquilo-outro”, penso que no direito de mudar como uma superação de si mesmo, um crescimento contínuo, um auto-avaliar-se-constante. Outro dia, vi o Zé Celso dizer que esse trans, é o trans-homem do Übermench de Nietzsche, o qual deveria ter sido corretamente traduzido como trans-homem e não super-homem com tem sido comumente traduzido. Gostei da comparação. Vejo pessoas que sofrem porque se cobram de ter de serem de determinadas formas que a sociedade exige, a igreja exige, os pais exigem, etc. Não nego que também me vejo no dever de ser isso tudo que esse superego social exige e que as convenções sociais nos obrigam, mas penso que há uma brecha para o direito de mudar, de experimentar novas possibilidades de ser, de subverter costumes. Ninguém nasce prederminado, a não ser a morrer, nem sequer ser homem ou mulher. Tudo não passa de predefinições jurídicas, pol

Judith Butler

Judith Butler, filósofa que fala da interpelação e da perfomatividade.

íticas, religiosas, econômicas, as quais somos interpelados para usar uma expressão da filósofa estadunidense Judith Butler. Sim, de fato, como diz a própria Butler, somos obrigados a performatividade, a exercer um papel. O bebê nem nasceu, e alguém, baseado no pequeno
órgão sexual do feto, já diz qual será o seu nome, que é o menino ou menina e que cor de roupa irá usar ou que brinquedos irá brincar. A violência, é característica tão humana, que é exercida pela medicina, pela lei e até pelos mais doces e bem intencionados pais. É preciso transmutar, nietzchianamente falando, encontrar os próprios valores.

É preciso ser mais do que um sexo. É preciso ser mais do que um gênero. É preciso ser mais do que roupas e brinquedos. Não. Estas coisas não podem nos determinar de vez. Se tudo isso foi convenção humana, então pode ser mudado, pode ser transitado. A liberdade reside aí, na capacidade humana de não repetir, de criar novos mundos, novas linguagens, novas culturas, novas formas de ser no mundo.

É por isso que mudo de ideia sempre. Desculpe, mas continuarei a ser infiel como prova de meu comprometimento e minha lealdade.infidelidade2

 

São Paulo, 01 de março de 2017.

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Moonlight, gafe no Oscar e ação política

André Alves

moonlightNeste momento está todo mundo comentando mais sobre a gafe da noite do Oscar de 2017, na qual foi anunciado equivocadamente o prêmio de melhor filme para La La Land, em vez de Moonlight, do que efetivamente comentando sobre os filmes em si mesmos. Fato é que, não obstante a gafe da velha atriz que anunciou o prêmio ao filme errado e as redes sociais darem mais atenção para isso do que para as qualidades dos filmes premiados (isso já nos daria uma crônica para comentar certos fenômenos das redes sociais e da mídia), Moonlight mereceu a premiação, a meu ver, e é dele que quero comentar nas linhas que se seguem. Aliás, penso que as premiações foram bem justas este ano, por exemplo, a de melhor ator para Casey Affleck que protagonizou o depressivo Lee Chandler em um outro dos melhores dramas deste ano, o lindíssmo e apreensivo Manchester à beira-mar. Diga-se de passagem, sou do tipo que dorme em filmes de ação e fica alerta em filmes dramáticos.

O diretor  Barry Jenkins foi realmente ousado ao produzir um filme como esse. Não quero nem comentar sobre orçamento ou coisas do tipo. Moonlight é um filme produzido com coragem ética, política e artística.

Barry Jenkins

Diretor Barry Jenkins de Moonlight

Coragem ética porque trata de racismo e homossexualismo com ousadia, naturalidade, sensualidade e delicadeza, sem perder a profundidade e a gravidade que tais temas causam ainda na sociedade contemporânea.

Coragem política, porque é um filme que com ou sem intenção política, promove o debate de temas, como os mencionados, para além de outros bem complicados como preconceito, violência, prostituição, drogas, bullying,  etc. e tudo isso sem recorrer a clichês de condenação barata, portanto, capaz de provocar ação (usando a expressão no sentido de Hannah Arendt) e ser ação política.

E coragem artística, porque é um filme que ousou em uma narrativa complicadíssima, pesada, que nos envolve emocionalmente, de um realismo chocante, violento, sensual, às vezes quase irritante, por exemplo quando na cena em que Chiron se reencontra com seu amigo Kevin no restaurante deste e tem de aguardá-lo até fechar o expediente, ficamos na expectativa deste reencontro até o cara sair do restaurante. Ademais, sob o aspecto artístico, os atores estão esplendidamente naturais em todas as cenas. Ver a presença do ator Mahershala Ali no papel do bondoso traficante Juan, depois de tê-lo visto atuar esplendidamente na série mais política do Netflix “House of Cards”.

A história do filme é sobre o pequeno Chiron, filho de uma mulher que se prostitui e se vicia em drogas. Chiron sofre perseguição dos colegas da escola, não sabemos se pelo fato de ter uma mãe prostituta ou por ser gay, embora como bem observou um amigo meu, nada indicasse que já ele ou alguém já soubesse disto. É possível que sofreu bullying pelas duas coisas. Chiron conhece Juan e Teresa, amigos que o acolheram sempre. Sua mãe tem dificuldades em demonstrar amor. Ele é calado, tem dificuldades de se relacionar, a não ser com seu amigo Kevin. Mais tarde Chiron se envolve em dificuldades, Kevin estava envolvido nisto. Os dois precisarão se entender.

Tive a oportunidade de ver este filme em minhas férias em Buenos Aires. Aliás, coincidentemente, também em Buenos Aires é que assiste ao La La Land, filme que quase ganhou o Oscar. Lá Moonlight recebeu um nome espanholizado “Luz de Luna”. Na sessão e que o assisti, havia praticamente 99% de pessoas brancas na sala do Cine Lorca da famosa Avenida Corrientes. Em minha cabeça eu ficava imaginando o que toda aquela gente branca estava pensando de estar assistindo um filme de negros e com homossexuais ainda por cima!luz-de-luna

Barry Jenkins, de fato, é um corajoso e é por isso, que vejo em seu filme a própria ação política (Jenkins é negro). Conforme a filósofa Hannah Arendt nos esclarece em seu livro A Condição Humana, a ação e a fala andam juntas e são os principais elementos da política, inclusive da velha política grega ateniense, em que a narrativa de si mesmo entra como elemento fundamental da ação política dos livres. Jenkins ousou no preciso momento em que os Estados Unidos vive um dos piores momentos de sua história política onde o racismo de boa parte de seus eleitores é constatado, ao elegerem um conservador como Donald Trump, como reação após a gestão de sucesso do primeiro e único presidente negro Barack Obama. Moonlight é mais do que entretenimento. Moonlight é empoderamento, é crítica, é afirmação da negritude, da homossexualidade, do amor sem barreiras, do respeito que qualquer ser humano merece.

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Hannah Arendt, filósofa judia-alemã (1906-1975), autora de A Condição Humana

Confesso, que a última cena do filme, havia me frustrado, por não ser tão explícita eroticamente. Mas isto, certamente, é a estratégia de Jenkins para chamar até a atenção dos mais “puros”, seja lá o que isso signifique.

São Paulo, 28 de fevereiro de 2017.

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Escrever crônicas, preservar memórias

André Alves

mulher-escrevendoEncontrei uma maneira de escrever. A crônica. Lendo alguns textos de Martha Medeiros, verifiquei o quanto me identifico com esta escrita mais curta, mais rápida, mais direta e mais sucinta. Mas não é só isso. A crônica é uma fotografia do tempo. De um pequeno espaço de tempo. Mas de uma grande profundidade dependendo de quem a escreve e do que se escreve. Martha Medeiros faz isso, por exemplo. Fala do dia-dia, do cotidiano, do que viu, do que vê e do que pensa. Só isso já é um mundo de coisas. Um universo de matérias e objetos de reflexão.

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Martha Medeiros, colunista dos jornais Zero Hora e O Globo. Autora de “Feliz por Nada”.

 

 

Me lembrei que Rubem Alves, um dos meus cronistas prediletos, também escreve dessa maneira. Nunca perdeu a profundidade falando de coisas simples. Falando da vida. Mas a vida é simples? Aliás, até as coisas mais complicadas, no final das contas, está falando da vida (vide a filosofia e a psicanálise), porque é com isso que nós temos que nos ocupar todos os dias. E de fato nos ocupamos, afinal trabalhamos, estudamos, nos divertimos, comemos. Enfim, vivemos.

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Rubem Alves, escritor

Como um professor de filosofia por formação e gosto, mas não por atuação (não trabalho atualmente com isto), tenho uma mania de escrever muito. Outro dia, uma amiga minha, postou na rede social em cima de um comentário que fiz da sua postagem, que textos muito grandes não são lidos no mundo virtual. Pasmem! O comentário só tinha umas sete linhas. Fico pensando se alguém vai ler as minhas crônicas, que pretendo que tenham no máximo duas páginas. Certamente ela não vai ler.

Para dizer a verdade, estou começando a escrever crônicas, não tanto para ser lido. Não que eu seja hipócrita. É óbvio que quero que elas sejam lidas. Afinal para quem já escreveu dois livros, escreveu em blog, está mais do que claro o desejo de ser lido. Mas sinceramente, o que ando mesmo preocupado, é com a minha memória. Leio muitos livros, vejo muitos filmes, observo muitas coisas no mundo, tenho muitos pensamentos. Mas sinto que vou deixando estas coisas pelo caminho se desvanecendo e temo muito por isso. Logo, encontrei na crônica uma maneira de registrar. Uma espécie de memória registrada. Porque a minha memória já não sei se é tão confiável.

Então se você está lendo esta crônica. Saiba que me sinto muito feliz por isso. Porém se ninguém vier a ler, é a minha memória que está preservada para mim mesmo aqui.   Neste caso “você”, pode ser outro de mim mesmo. Eu me tendo por objeto. É o ápice da subjetividade, quando o sujeito é o próprio objeto para o qual o sujeito se direciona. Isso se chama reflexão, que é o mesmo que flexionar sobre si mesmo.

socrates

Sócrates, filósofo grego, 469 a 399 a.C.

Aliás, acho que é isso que fiz a vida inteira, pensar sobre mim mesmo. Mesmo quando estudo sociologia, leio sobre vidas de escritores, políticos, filósofos e artistas, no fundo estou querendo me conhecer, entender o mundo que vivo, de que maneira me portar nele para ser feliz, para viver uma vida boa. Aliás foi Sócrates, quando recebeu de Diotima, o oráculo de Delfos, quem recebeu a famosa frase da história da filosofia: “Conheça-te a ti mesmo”. Então a crônica é isso, minha maneira de olhar e entender a mim mesmo e o mundo. Porém, como nunca estamos sozinhos, sempre será possível uma citação de um grande pensador aqui e acolá e será sempre preciso falar sobre os outros, a sociedade, a cultura, a história. Porque só se pode conhecer a si mesmo quando miramos ao nosso redor. A crônica é isso, uma pequena fatia do tempo em que miramos nós mesmos e ao nosso redor.

São Paulo, 27 de fevereiro de 2018

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DIÁLOGOS ENTRE MICHEL FOUCAULT E JUDITH BUTLER PARA PENSAR SEXUALIDADE, GÊNERO E IDENTIDADE

 

Introdução

Este artigo tem como escopo uma análise, ainda que de forma ensaística, sobre as possibilidades trazidas pelas abordagens de Michel Foucault para pensar questões sobre sexualidade e identidade de gênero. Utilizaremos também os conceitos da filósofa contemporânea estadunidense Judith Butler sobre o tema, dialogando com o pensamento do filósofo francês, procurando ver as contribuições de ambos para a Teoria Queer.

Para isto faremos inicialmente uma breve passagem pela vida e obra de Foucault, focando principalmente em suas abordagens da sexualidade e do sujeito, temas estes localizados principalmente em seus textos de História da Sexualidade. Em seguida, apresentaremos brevemente a obra de Judith Butler e suas contribuições para os estudos da Teoria Queer, procurando já aí destacar aquilo em que seu pensamento, ao nosso ver, dialoga com o pensamento de Michel Foucault.

Ao final, esperamos poder demonstrar como as ideias de ambos tem contribuído podem ainda contribuir para o atual debate sobre as questões de gênero, sexualidade e identidade.

  1. Michel Foucault: vida, obra e ênfases temáticas

foucault5Paul-Michel Foucault nasceu em 1926 em Poitiers na França. Filho de pais médicos decidiu dedicar-se à Filosofia, à História e à Psicologia. Seus primeiros textos da chamada fase arqueológica trataram sobre as relações do saber nos contextos institucionais da psiquiatria e da medicina, bem como das epistemes nas ciências. Os textos da segunda fase, chamada de genealógica, enfatizaram as relações de poder, enquanto que os da última fase, a ética, focaram na conduta dos indivíduos, os sujeitos éticos mediante os jogos de verdade, isto é, os mecanismos, processos e dispositivos que afirmam o que é falso e o que é verdadeiro e pelo qual o sujeito se assume e se entende eticamente.

Entretanto, ainda que haja estas ênfases reconhecidas nas três fases consideradas sobre o pensamento e as obras de Foucault, é possível ver Foucault sempre retomando e ampliando questões das quais tratou em obras de fases anteriores. Por exemplo, a questão das relações de poder já estava presente na fase arqueológica em seus estudos sobre os hospitais e os discursos da psiquiatria. Ao mesmo tempo, as questões sobre como esse poder se dava no controle dos corpos dos indivíduos, assunto amplamente tratado em Vigiar e Punir (1974), livro de sua considerada segunda fase, a genealógica, estão presentes já nas obras de História da Loucura e Nascimento da Clínica, da primeira fase, bem como nos textos da terceira fase, História da Sexualidade II: O Uso dos Prazeres e História da Sexualidade III: O Cuidade de si. Ou seja, apesar de não me parecer coerente com o próprio pensamento foucaultiano elaborar uma sistematização de seu pensamento, é possível verificar em que certa medida suas preocupações centrais sobre: relações de poder, epistemes dos discursos e das ciências, rupturas históricas, governamentalidade, biopolítica, ética dos sujeitos sujeitados, dispositivos, etc. Tais temas estão sempre sendo considerados, mencionados, ampliados e retomados de uma forma ou de outra em seus diversos trabalhos seja de que época ou fase forem.

  1. A questão da sexualidade em Michel Foucault

foucault-michel-histoire-de-la-sexualit-vol1-la-volont-de-savoir-1976-1-638A preocupação com a questão da sexualidade em Michel Foucault não está em fazer tratados de ideias conceituais a respeito do sexo, no que poderia se ocupar um filósofo. Tampouco, procura fazer o levantamento histórico dos comportamentos e das ideias sexuais em sua arqueologia ou mesmo a genealogia, seus métodos de fazer “história”. Aliás, o próprio Michel Foucault em sua introdução à História da Sexualidade II: O Uso dos prazeres, justificou que este nunca fora seu projeto:

Meu propósito não era o de reconstruir uma história das condutas e das práticas sexuais de acordo com suas formas sucessivas, sua evolução e sua difusão. Também não era minha intenção analisar as ideias (científicas, religiosas ou filosóficas) através das quais foram representados esses comportamentos. (FOUCAULT, 1984, p.9)

As análises de Foucault sobre sexualidade têm mais a ver com a possibilidade de revelar os discursos de verdade, ou jogos de verdade, como fica mais claro neste segundo volume de História da Sexualidade. No texto “Não ao sexo rei” de Microfísica do Poder, Michel Foucault deixa claro o que não pertence e o que o pertence ao seu projeto de estudos sobre a sexualidade:

Não quero fazer a crônica dos comportamentos sexuais através das épocas e das civilizações. Quero seguir um fio muito tênue: o fio que, em nossas sociedades, durante tantos séculos ligou o sexo e a procura da verdade. […] O problema é o seguinte: como se explica que, em uma sociedade como a nossa, a sexualidade não seja simplesmente aquilo que permita a reprodução da espécie, da família, dos indivíduos? Não seja simplesmente alguma coisa que dê prazer e gozo? Como é possível que ela tenha sido considerada como o lugar privilegiado em que nossa “verdade” profunda é lida, é dita? Pois o essencial é que, a partir do cristianismo, o Ocidente não parou de dizer “Para saber quem és, conheças teu sexo”. O sexo sempre foi o núcleo onde se aloja, com o devir de nossa espécie, nossa “verdade” de sujeito humano. (FOUCAULT, 2016, pp.344-345).

Podemos perceber que, nesse sentido, o que Michel Foucault focalizou como análise dos documentos históricos a respeito do sexo, foi a maneira como os discursos de verdade ou jogos de verdade definiram sujeitos ou em como esses sujeitos se definiram a partir desses discursos. Na primeira fase do Projeto, em História da Sexualidade I, a análise mostra em como a confissão no cristianismo e a ampla discussão dos mínimos detalhes da sexualidade nas ciências biológicas e depois nas ciências humanas conduziram a humanidade a se definirem essencialmente pelo sexo. Michel Foucault dirá que nunca antes se falara tanto de sexo, porém não para liberá-lo, se não muito mais para proibi-lo. A confissão fez com que, o controle dos atos mais íntimos, acabassem por torná-los objetos de conhecimento da instituição Igreja, de forma a permitir o controle desta sobre os indivíduos que também vigiando uns aos outros, controlassem-se mutuamente. Assim, já aqui aparecem as relações de poder da maneira como Foucault procurou demonstrar, o poder de forma horizontal, um “panoptismo”, a serviço de um poder central, o governo de uns sobre os outros.

Porém, ainda em História da Sexualidade I: A vontade de saber  (e devemos lembrar que este livro está na primeira fase em que Foucault está mais voltado para a questão do saber) demonstra assim como o mecanismo da confissão, da literatura vieram a contribuir para o aparecimento de uma scientia sexualis (CASTRO, 2015, pp. 100-101). Nesta análise tanto a análise das rupturas epistêmicas quanto as relações entre poder e saber ficam evidentes.

Outro fator que deve ser mencionado sobre os estudos de Foucault da sexualidade é que eles não trazem o terreno comum da questão mais ostensivamente discutida da repressão. Conforme Castro (2015, p.99):

Em A vontade de saber , o primeiro tomo de História da Sexualidade, põe-se em jogo outra das categorias habituais da análise histórico-política: a repressão. A respeito, Foucault se coloca três perguntas: a repressão sexual é uma evidência histórica?; a mecânica do poder nas sociedades modernas é essencialmente da ordem da repressão?; e, finalmente, o discurso crítico contra a repressão nos permite evita-la ou toma parte do mesmo dispositivo? […] Com estas interrogações não se trata de sustentar hipóteses simétricas e inversas, mas de ressituar a hipótese repressiva – hipótese a um tempo histórica, teórica e política.

Não é que Foucault desconsidera o problema da repressão ou mesmo o rejeite. O que ele procura entender é porque nos sentimos reprimidos com relação a sexualidade. Ou seja, por que afinal se dá tanta importância ao sexo? Por que pelo sexo se define uma identidade? Analisaremos um pouco mais este aspecto nas discussões que a filósofa Judith Butler faz a respeito do tema. O importante a se perceber disto, é que Foucault, embora analisando períodos específicos da história está procurando entender questões atuais. E isso é extremamente contributivo para os atuais debates em torno das questões de gênero, sexualidade e identidade.

Em História da Sexualidade II, conforme mencionamos, o projeto não é fazer um recorte histórico linear dos comportamentos sexuais ao longo de períodos históricos. Tal fato poderia ser desastroso do ponto de vista foucautiano, já que a própria palavra “sexualidade” da forma como hoje se entende poderia ser anacronicamente imposta a essa análise, visto que o sentido de “sexualidade” , palavra que só foi criada no final do século XIX, não retrataria de fato as questões sexuais da forma como se concebia nessa época. Entretanto ele não deixa de lado na motivação de sua pesquisa, que é justamente compreender o presente da sexualidade, a saber porque indivíduos se comportam como se comportam, porque estabelecem para si determinados valores, etc. Trata-se antes de analisar um conjunto de discursos, campos de saber, regras de normatividade e formas de subjetividade pelas os sujeitos vivem a experiência de suas sexualidades.   Uma pesquisa assim foge ao projeto corrente de questões da sexualidade, como a questão da repressão sexual, interdições, etc. Para esta nova tarefa que Foucault se propôs,  a saber a de conceber uma história da sexualidade enquanto a sexualidade como experiência historicamente singular, três eixos constituem tal aspecto: 1) formação dos saberes que a ela se referem; 2) sistemas de poder que regulam sua prática; 3) formas pelas quais os indivíduos podem e devem se reconhecer como sujeitos dessa sexualidade.  Os dois primeiros eixos foram conquistados com as pesquisas sobre a medicina e a Psiquiatria  –  o poder punitivo e disciplinar inerente a estas. Tais pesquisas permitiram a análise das práticas discursivas as quais, por sua vez, permitem seguir a formação dos saberes, a análise das relações de poder e de suas tecnologias. O terceiro eixo é a que Michel Foucault se propõe nesta obra. Porém, Foucault fugiu de pesquisar a experiência singular e individual da sexualidade a partir do lugar comum de outros estudos teóricos que analisa o homem enquanto sujeito desejante ou homem de desejo. Tal concepção comum nas teorias do Século XVIII e XIX tem sua origem na tradição cristã. Michel Foucault então lança mão de traçar uma genealogia da sexualidade no sentido de “pesquisar, nessa genealogia, de que maneira os indivíduos foram levados a exercer, sobre eles mesmos e sobre os outros, uma hermenêutica do desejo à qual o comportamento sexual desses indivíduos sem dúvida deu ocasião, sem no entanto constituir seu domínio exclusivo. (FOUCAULT, 1984, p.11). Em suma, entender de que maneira durante séculos o homem se compreendeu como sujeito de desejo.

O deslocamento teórico de Michel Foucault o fez partir em três direções: 1) interrogar-se sobre as formas discursivas que articulavam o poder – progresso dos conhecimentos; 2) interrogar-se sobretudo sobre as relações múltiplas,  as estratégias abertas e as técnicas racionais que articulam o exercício dos poderes – manifestações do “poder”; 3) pesquisar quais são as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito – análise dos jogos de verdade   É entretanto na análise dos jogos de verdade entendido como ” jogos entre o verdadeiro e o falso através dos quais o ser se constitui historicamente como experiência,  isto é,  como podendo e devendo ser pensado.”. Em tal análise são levantadas as seguintes interrogações:   Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco, quando se olha como doente, quando reflete sobre si como ser vivo, ser falante e ser trabalhador, quando ele se julga e se pune como criminoso? Através de quais jogos de verdade o homem se reconheceu como homem de desejo?   Em outras palavras, que discursos e que mecanismos de poder homem permitiram ao sujeito pensar-se a si mesmo?   O trabalho que Foucault empreende em O uso dos prazeres é uma análise genealógica dos sujeitos-sujeitados à ética e moral cristã e grega-clássica.  Tal análise se faz de forma histórica com base em documentos, mais especificamente em textos prescritivos que tinham como objetivo oferecer regras de conduta. Foucault empreendeu assim em falar do sujeito ético. Lembrando que este sujeito se comporta num ideal ético que se perfaz e se justifica eticamente a partir e dentro dos jogos de verdade. Os eixos que conduzem a pesquisa de Foucault são justamente os temas dos capítulos de História da Sexualidade II (FOUCAULT, 1984, p.25):   1) problematização da Moral; 2) a relação com o corpo; 3) A relação com a esposa/as mulheres; 4) a relação com os rapazes e 5) a relação com a verdade.

  1. Judith Butler, influências e diálogos com o pensamento de Foucault, problemas de gênero e Teoria Queer

Judith ButlerNesta parte gostaríamos de apresentar brevemente o pensamento de Judith Butler, procurando ver em como ela de alguma forma foi influenciada pelo pensamento de Michel Foucault e no que seu pensamento a respeito dessas interlocuções contribuíram para as questões de gênero com influências para a Teoria Queer. Butler chega a ser considerada como continuadora do pensamento de Foucault (RODRIGUES, 2015, p.22).

Judith Butler nasceu em 1956 nos Estados Unidos. Judia, e lésbica. Considerada filósofa pós estruturalista, Butler é professora de retórica e literatura comparada na Universidade da Califórnia em Berkeley. Conforme Salih (2015, p.10):

Seus livros mais conhecidos, Gender Trouble (1990) – Problemas de Gênero e Bodies That Matter (1993) – Corpos que pesam, são encontrados em muitas listas de leitura sobre estudos de gênero e provavelmente são estudados por muitas pessoas que trabalham nas áreas da teoria queer, da teoria feminista, da teoria gay e lésbica.

Neste ensaio, comentaremos mais a respeito de seu pensamento voltado para estas áreas de gênero e sexualidade presentes principalmente nas duas obras mencionadas por Salih. Porém, Butler escreve sobre diversos assuntos como linguagem, narrativa, ética, filosofia, sociologia, política etc. e publicou diversos outros textos.

Como nosso intuito neste ensaio não é fazer análise exaustiva da obra e do pensamento de Butler, fizemos alguns comentários visando mencionar algumas das questões centrais do pensamento butleriano no que diz respeito principalmente aos temas das sexualidade, gênero e identidade, procurando destacar aí mesmo alguns dos diálogos possíveis com o pensamento do filósofo francês. Analisaremos brevemente os termos interpelação e performatividade. Em tais questões fica demonstrado o trabalho de Butler em denunciar a heteronormatividade que procura resumir os sujeitos meramente na forma binária do masculino e feminino.

Sobre a interpelação, diz respeito a maneira como os sujeitos são convocados desde antes mesmo de seu nascimento a corresponder as determinações da heternormatividade binárias de masculino e feminino. Um exemplo disto, é o momento da ultrassonografia quando os pais na curiosidade de descobrir o sexo da criança, (e aqui podemos ver diretamente a influência da medicina enquanto scientia sexualis e a importância que os sujeitos dão a este discurso para por ele se definir enquanto identidade, ou seja, definir-se a partir do sexo, conforme as análise que Michel Foucault fizera em seus textos a respeito da sexualidade), acabam com isso definindo uma essência antes mesmo da existência efetiva desse ser no mundo. Ao dizer “é menino” ou “é menina”, os pais passarão a escolher nome, roupas, cores de móveis e quarto, brinquedos, etc. que possam identificar a criança com um dos gêneros binários predefinidos. Conforme Butler (1993, p.7-8 apud SALIH, 2015, p. 109):

Consideremos a interpelação médica que, não obstante a emergência recente das ecografias, transforma um bebê de um ser “neutro” num “ele” ou “ela”: nessa nomeação, a menina torna-se menina, ela é trazida para o domínio da linguagem e do parentesco através da interpelação do gênero. Mas esse tornar-se uma menina não termina aí; pelo contrário, essa interpelação fundante é reiterada por várias autoridades e, ao longo de vários intervalos de tempo, para reforçar ou contestar esse efeito naturalizado. A nomeação é, ao mesmo tempo, o estabelecimento de uma fronteira e também a inculcação repetida de uma norma. (BTM, p.7-8).

Percebemos neste texto a relação de poderes e saberes, teses foucaultianas, e talvez também a questão dos jogos de verdade que envolvem tanto a instituição médica quanto as outras instituições sociais, como a família, que pela dinâmica da interpelação obrigarão o sujeito ao cumprimento do que se considera verdadeiro ou falso no que diz respeito a heteronormatividade, tida inclusive como naturalizado. É importante entender que Judith Butler está justamente superando qualquer ideia natural a respeito de gênero, e até mesmo a respeito do sexo, neste sentido mais especificamente a nossa “identidade sexuada” (SALIH, 2015, p.108). Neste sentido Butler que fez suas leituras também em Simone de Beauvoir, está levando ainda mais ao extremo as consequências da famosa frase da filósofa francesa autora de O Segundo Sexo (1949): “não se nasce mulher, torna-se mulher” e aliás ela critica de Beauvoir por considerar que esta falou de mulher como construção a partir do homem, onde este seria então “o primeiro sexo”, deixando ainda o conceito da essencialidade do “homem” ainda prevalecente e não o descontruindo. Ainda aqui, é possível ver também a influência de Foucault no que tange ao conceito de sujeito, pois é como sujeito-sujeitado, isto é, dentro de condições de possibilidade, que estabelecemos nossas identidades (sexuadas) e nossos gêneros.

Assim como a moral que nos constitui enquanto sujeitos éticos na maneira em como Foucault apresenta esta questão em História da Sexualidade II, isto é, o sujeito se comportando a partir da moral dos discursos e dos jogos de verdade, Butler mostra em sua obra Relatar a si mesmo que o sujeito paradoxalmente faz o relato de si mesmo, ou seja, constrói sua identidade e sua moral a partir de condições que a possibilitam, justamente a interpelação. Conforme Butler (2015, p. 22) “Relatamos a nós mesmos simplesmente porque somos interpelados como seres que foram obrigados a fazer um relato de si mesmo por um sistema de justiça e castigo.” Também diz a autora que

um sujeito produzido pela moral deve descobrir sua relação com ela. Por mais que se queira, não é possível se livrar dessa condição paradoxal da deliberação moral e da tarefa de relatar a si mesmo. Mesmo que a moral forneça um conjunto de regras que produz um sujeito em sua inteligibilidade, ele não deixa de ser um conjunto de normas e regras que sujeito deve negociar de maneira vital e reflexiva. (BUTLER, 2015, p.21)

Assim, mesmo quando tentamos escapar das regras e condutas a que nos vemos obrigados a nos submeter em função das interpelações sociais, ainda assim o fazemos debaixo dessas mesmas condições. Fazer um relato de si mesmo é sempre fazer um relato de si em relação a outro(s). Mesmo que se tente “sair do armário”, saímos com as roupas do armário que já foram produzidas de alguma forma por outros. Ou seja, somos sujeitos sociais e para afirmar nossa história de “si mesmo” a fazemos a partir de uma sociedade ou do “outro”. Neste contexto é importante entender a importância que Butler dá a dialética, na mesma linha da dialética do senhor e do escravo, já que seu primeiro trabalho para obtenção de seu doutorado foi um trabalho sobre Hegel (SALIH, 2015, p.9).

A questão da interpelação mostra como o sexo e o corpo e a maneira como estes são definidos na sociedade fazem parte de discursos que os estruturam e procuram definir na maior parte das vezes a partir da heternormatividade.

A performatividade diz respeito a questão do gênero. Mais especificamente Butler refere-se a maneira como o sujeito responderá a interpelação. Ou seja, sendo constantemente convocado a se comportar e buscar uma identidade que seja dentro da heteronormativa, o sujeito responderá isto de diversas maneiras: seja cumprindo um gênero masculino ou um gênero feminino. É importante neste sentido entender que Butler está querendo mostrar que toda esta identidade performativa de gênero não passa de uma construção e de linguagem. Assim, o gênero não possui nada de natural, nada de biológico. E seguindo a exposição de Salih (2015, p.21):

Butler, seguindo Foucault, caracteriza esse modo de análise como “genealógico” […] Uma investigação genealógica da constituição do sujeito supõe que sexo e gênero são efeitos – e não causas – de instituições, discursos e práticas; em outras palavras, nós, como sujeitos, não criamos ou causamos as instituições, os discursos e as práticas, mas eles nos criam ou causam, ao determinar nosso sexo, nossa sexualidade, nosso gênero. […] as identidades “generificadas” e sexuadas são “performativas”.

Portanto, interpelação e performatividade embora sejam termos que refiram-se muito mais a constatações de uma realidade das estruturas linguísticas, discursivas e de poder que denunciam gênero, identidade e sexo como construções sociais, possuem também o potencial da subversão. Pois ao constatar gênero, sexo e identidade como construções sociais, elas podem ser da mesma forma desconstruídas e modificadas para superar a heternormatividade, uma vez que evidenciam a desnaturalização dos binômios masculino e feminino, homem e mulher, etc.

tumblr_inline_n0lebbgfop1sp4zf6Por último, devemos destacar que a obra de Butler tem sido uma das fontes principais para os estudos da chamada teoria Queer, ao lado da francesa Marié-Hélèle/Sam Bourcier e o espanhol Paul Beatriz Preciado, bem como Berenice Bento e Ricardo Miskolci entre outros no Brasil. Ainda desconhecida do grande público, inclusive desconhecida de boa parte do próprio público LGBT, a teoria Queer, é um conjunto de estudos, teses e pesquisas sobre feminismo, questões de gênero, sexualidade e política. Queer é um termo em inglês que originalmente era uma gíria ofensiva para referir-se aos homossexuais, significando “bicha”, “veado” ou “sapata”. Ao longo do século XX, tornou-se um termo par identificar teorias de gênero, tendo iniciado a partir dos estudos feministas. Basicamente, a teoria Queer procura demonstrar que as identidades sexuais e generificadas não são essências mas construções sociais e culturais. Por isso, a teoria Queer trabalha com a perspectiva da desnaturalização dos sexos e das identidades de gênero. Ninguém nasce com uma sexualidade ou com um determinado tipo de gênero, segundo algumas das teses da teoria Queer. A obra de Butler com forte preocupação com a categoria sujeito seja desestabilizando-a ou a colocando em seu devido lugar, tornou-se imprescindível para a teoria Queer, já que as “teorias centrais a que Butler se remete, e a combinação de foucaultianismo, psicanálise e feminismo, que, desde o início caracteriza sua obra é parte daquilo que faz com que suas teorias sejam classificadas como queer.” (SALIH, 2015, p.18).

Considerações Finais      

A análise da sexualidade a partir das ideias e “ferramentas” do pensamento e do trabalho de Foucault permitem uma quase inesgotável fonte de possibilidades para o debate atual sobre sexualidade, identidades e questões de gênero. Não há dúvida de que os conceitos de sujeito, jogos de verdade, governamentalidade, dipositivos, etc. apresentados principalmente nos textos de História da Sexualidade e mesmo em outras obras nos ajudam a compreender quais são os mecanismos, as técnicas, as epistemes, os processos sobre os quais somos levados a construir nossas identidades sexuais e em como são determinados questões hegemônicas , como a heteronormatividade, por exemplo, contribuem negativamente para o aumento do preconceito, da intolerância a comunidade LGBT por um lado por parte de religiosos e conservadores. Por outro lado, estes mesmos processos e esta condição de possibilidade heternormativa faz na cabeça de indivíduos que insistem em uma única identidade generificada a partir ainda de binôminos masculinos e femininos, porque estes sujeitos estão debaixo destas estruturas sociais heternormativas.

A comunidade LGBT ainda pode superar em muito suas questões, descobrindo outras possibilidades de ser e estar no mundo com toda liberdade sexual pretendida, sem que para isso necessariamente siga a algum padrão pré-estabelecido. Ainda que dizer isto, seja por um lado negar Foucault, que parecia ver as coisas debaixo de estruturas quase que inescapáveis. Porém por outro lado, a pesquisa foucaultiana acaba contribuindo para este desvelamento das construções sociais de gênero levando a uma consequente desnaturalização promissora para superar a identidade generificada pelo desejo. Em outras palavras, desejo é desejo. Diz respeito ao prazer apenas. Gênero se constrói e podem ser os mais diversos. Identidade também.

Quanto a Judith Butler, não há dúvida de que seus textos são extremamente promissores para os estudos da Teoria Queer, como de fato tem sido assim utilizados. E podem de fato, como já o tem feito, contribuir não somente para os estudos feministas ou de gênero, mas para a promoção de políticas de inclusão, de afirmação de minorias, e projetos de educação sexual nas escolas. Ao denunciar a violência da interpelação aos sujeitos, Butler revela o quanto ainda estamos longe de uma sociedade justa e o quanto estamos tão envolvidos em uma sociedade de contradições e de relações de poder.

Há outros pontos em que Bulter discute diretamente textos de Foucault sobre a sexualidade como o  texto “Foucault, Herculine e a política da descontinuidade sexual”. Porém, por questões de limitação de espaço e de tempo, não exploramos este assunto entre outros aqui.

Em setembro de 2015 o SESC realizou o I Seminário Queer – Cultura e Subversão das Identidades, onde a filósofa Judith Butler e Marie Hélène / Sam Bourcier estiveram presentes entre outros teóricos queers do Brasil. O Brasil ainda tem muito a evoluir nesta área, mas sentimos aqui e acolá alguns ventos de possibilidade de pensar as questões de gênero, identidade e sexualidade em níveis mais superiores de uma verdadeira vanguarda que supere pensamentos essencialistas.

BIBLIOGRAFIA

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

_______. Relatar a si mesmo: Crítica da violência ética. Tradução Rogério Bettoni. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2015.

CASTRO, Edgardo. Introdução à Foucault. Tradução Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2015.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Tradução Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

________. História da Sexualidade II: O uso dos prazeres. Tradução Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.

________. Microfísica do Poder. Organização, introdução e revisão técnica Roberto Machado. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

LOURO, Guacira Lopes. Uma sequência de atos. Revista Cult, São Paulo, Ano 19, Edição Especial n. 6, Janeiro. 2016.

PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. Judith Butler: Condições de vida e o horizonte o representável. Revista Cult, São Paulo, Ano 18, Edição n. 205, setembro. 2015.

RODRIGUES, Carla. A política do desejo. Revista Cult, São Paulo, Ano 19, Edição Especial n. 6, Janeiro. 2016.

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria Queer. Tradução Guacira Lopes Louro. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2015.

SILVEIRA, Emerson José Sena da. Circuitos Criativos: Uma análise sobre os “circuitos criativos” do poder, do saber e do cuidar a partir da trajetória e das ideias de Foucault. Revista Conhecimento Prático/Filosofia, São Paulo, Edição n.37.

TIBURI, Márcia. Judith Butler: Feminismo como provocação. Revista Cult, São Paulo, Ano 19, Edição Especial n. 6, Janeiro. 2016.

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Caráter de continuidade da obra sartriana

Sartre I e Sartre II

Analisando superficialmente as obras de Sartre, podem num primeiro momento apontar para uma certa divisão do seu pensamento, cuja aparência indicaria que o primeiro Sartre teria uma filosofia mais afeita as questões da subjetividade, enquanto que o segundo teria uma filosofia mais engajada politicamente. Embora tal divisão possa denotar um certo sentido de mudança de acento na obra sartriana, não devem demonstrar alguma espécie de contradição ou descontinuidade. Ou seja, não há uma desconexão entre o pensamento sartriano de juventude, dos textos mais fenomenológicos e ontológicos, para o Sartre mais maduro em seus textos mais políticos. Ao contrário, o que se pode observar é uma maturação do seu pensamento, que se apoia nas bases que o precederam seus textos de juventude. Assim, entendo, que é possível ver já nos primeiros textos de Sartre um interesse por questões sociais e continuar vendo nos textos mais tardios os fundamentos ontológicos e onto-fenomenológicos.

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A obra de Sartre, neste sentido, ganha a cada nova publicação não uma filosofia que nega a anterior, como por exemplo, poderia se observar em Wittgenstein comparando o Tratado Lógico Filosófico e as Investigações Filosóficas. Ao mesmo tempo, reconheço, é possível ver nos textos tardios de Critica da Razão Dialética e O Idiota da família um esforço de Sartre em elaborar uma nova terminologia que dê conta de questões pouco trabalhadas ou não exploradas em suas obras de acento mais fenomenológico e ontológico.

 

Do Ego transcendental à escassez

Em A transcendência do Ego, texto que Sartre publicou em 1936 antes de O Ser e o Nada, publicada em 1943, Sartre já apontava preocupações políticas, mesmo que o acento do livro fosse em aspectos fenomenológicos. Neste texto o filósofo nega a impossibilidade de uma constituição egóica da consciência, negando que o Ego pudesse ser possível material e formalmente, algo que em Husserl, não fora bem resolvido, segundo Sartre. A transcendência do ego, é o fato de que a constituição humana é sempre voltada para fora e para o outro, transcendente. Sartre nega assim, uma interioridade e com isso foge do solipsismo que o cogito cartesiano ainda apontava. Com isto Sartre reafirma a noção de consciência intencional, uma consciência que é “consciência de si enquanto como é consciente de um objeto transcendente.” (SARTRE, 2015, p. 23).

Com esta negação da interioridade, Sartre não negou uma vida íntima e tampouco a subjetividade. A questão para Sartre, é que o “Eu” não é. O “Eu” é um “existente”. Como diz Sartre “O conteúdo certo do pseudo ‘Cogito’ não é “eu tenho consciência desta cadeira”, mas “existe consciência desta cadeira” (p.33). A consciência é assim o “lugar” onde se garante tanto a subjetividade quanto a intersubjetividade. “Meu Eu, com efeito não é mais certo para consciência do que o Eu dos outros homens. Ele é apenas mais íntimo.” (p. 69).

Sartre irá retomar estas questões da intersubjetividade nos estudos sobre o Para-Outro na terceira parte de O Ser e o Nada, inclusive na noção de Mitsein, ser-com, que ele recolhe de Heidegger. Mas é interessante como já em A transcendência do Ego, por meio destas questões que brevemente comentamos, Sartre aponta por meio da fenomenologia uma tratativa possível das questões de preocupação marxista. No final de seu texto Sartre aponta:

Os teóricos de extrema-esquerda acusaram algumas vezes a fenomenologia de ser um idealismo e de afogar a realidade na maré das ideias. […] Pelo contrário, há séculos que não se sentia na filosofia uma corrente tão realista. Eles recolocaram o homem no mundo, devolveram o devido peso a suas angústias e seus sofrimentos, e também suas revoltas. [grifo meu] […] Não é preciso nada mais para fundar filosoficamente uma moral e uma política absolutamente positivas. (SARTRE, 2015, p.70)

Ao tratar do problema da escassez em Sartre, Neide Boëchat apontou o problema do mal radical e do maniqueísmo. Sendo que “o que ameaça cada organismo não é a escassez de bens, mas a abundância de indivíduos que o disputam.” (BOËCHAT, 2011, p. 310). A consequência disso é a alteridade,  na figura do Outro, que se revela como o mal absoluto. Este mesmo mal, Sartre se utilizando de categorias hegelianas da dialética, como na dialética do senhor e do escravo, é o que produz a luta de classes. No conflito entre as classes, estabelece uma única moral, a da classe burguesa, onde o mal sempre fica localizado no inimigo de classe (p. 315). Cada indivíduo na sociedade da escassez se vê ameaçado pelo outro. Tais conceitos se encontram na obra Crítica da Razão Dialética, obra mais tardia de Sartre publicada em 1960.

Porém, conforme observarmos na Transcendência do Ego, o caráter de transcendência do ego, que resulta nesta intersubjetividade, está totalmente implícito nesta ideia de constila_transcendance_de_l_egotuição a partir do Outro. Boëchat (2011, p. 314) mesmo comenta que “o conflito maniqueísta favorece a consciência de si” e que por este conflito ocorre a constituição do sujeito. Tais ideias estão presentes em outra obra de Sartre Huis Clos, peça de teatro redigida por ele em 1943, onde encontramos a famosa frase “L’enfer c’est les autres”. O conceito de Ser-para-Outro é o aspecto ontológico que Sartre trata em O Ser e o Nada. No exemplo que Sartre dá sobre a vergonha, a qual revela-se não como mera reflexão a respeito de si mesmo, mas como algo que apreendo a partir de alguém, a partir do Outro, já que sinto vergonha “diante de alguém” (SARTRE, 2013, p.289).

 

Da liberdade ontológica ao método progressivo-regressivo

Percebemos na obra de Sartre a importância do coletivo, mesmo quando Sartre defende a liberdade ontológica. Portanto, a acusação dos marxistas de que Sartre tinha uma filosofia burguesa e meramente subjetiva é infundada. Sartre resgata a subjetividade ao marxismo. O coletivo se mostra na obra de Sartre a partir da importância que ele dá a constituição do sujeito a partir do outro, dialeticamente. Em a Transcendência do Ego e em O Ser e o Nada, Sartre nega o solipsismo através da negação de uma constituição egóica da consciência, para a ideia fenomenológica de uma consciência intencional. O que Sartre criticou no Marxismo era seu caráter determinista, por isso resgatou o aspecto subjetivo, conforme o prefácio de Michel Kail e Raoul Kirchmayr em O que é a subjetividade? “Desde o início de sua intervenção, Sartre procurou pôr a subjetividade  no âmago da análise marxista  para lhe devolver o vigor perdido.” (SARTRE, 2015, p.10). Resgatando a subjetividade Sartre traz o elemento da contingência, embora Sartre tenha deixado de utilizar o termo na Crítica da Razão Dialética. Mas a ideia está presente. A liberdade ontológica, da possibilidade de escolher e a escolha que se dá em situação, é coerente com a ideia marxista de condicionamentos sociais. Não vejo isto como contradição. E isto fica ainda mais claro em O Idiota da Família e já em Questão de Método no conceito de método progressivo-regressivo. A vida e a obra de Flaubert é analisada dentro de suas condições burguesas em determinado período da história da França. Mas Flaubert tomou decisões e fez escolhas justamente aí, em situação. Porém não de forma teleológica como marxistas costumam ler O 18 de Brumário, em que ainda que não tivesse um Luís Bonaparte, as condições sociais e históricas criariam um e o fato histórico seria exatamente determinado da maneira como ocorreu. Em Sartre não há esta determinação e ele tampouco a vê na obra de Marx. Sobretudo porque mesmo Marx e Engels afirmou que “Os indivíduos partiram sempre de si mesmos, mas, naturalmente, de si mesmos no interior de condições e relações históricas dadas, e não do indivíduo ‘puro’, no sentido dos ideólogos (MARX e ENGELS, 2007, p. 64).  O que existem são situações e dentro de situações dadas o sujeito faz as escolhas. Portanto o fator da liberdade associado ao método progressivo-regressivo, pode ser resumido no seguinte raciocínio circular “eu ajo no mundo que age em ‘eu’ que age no mundo que…”. Corroborando assim, a coerência de Sartre entre sua filosofia e seu marxismo. As escolhas humanas sempre culminam em resultados socializados, isto é, que alcançam outros homens: “ao escolher por si, cada homem escolhe por todos os homens”, afirma Sartre (2010, p.27) já em O Existencialismo é um humanismo publicado em 1943.

Assim, a ideia de subjetividade, intersubjetividade, a constituição pelo Outro e a liberdade ontológica Sartriana estão presentes nas obras “juvenis” e nas obras mais “maduras” de Sartre. Há uma coesão inegável da obra Sartriana que inviabiliza dividir sua obra buscando rupturas. Mas prova-se na leitura de seus textos, ainda que possa haver mudanças de acento, uma continuidade de seu pensamento formando um todo coerente capaz de analisar tanto aspectos psicológicos da subjetividade e da constituição do indivíduo, ao mesmo tempo em que se captam as questões históricas e sociais.

 

Considerações Finais

Concluo assim, este pequeno ensaio, que pretendeu demonstrar brevemente e com alguns exemplos o aspecto contínuo da obra de Sartre e assim minimizar o valor de uma análise que dividira sua obra em duas fases. Trata-se portanto de uma proposta do que poderia se tornar em uma pesquisa mais exaustiva, que engendre um relacionamento entre os conceitos do pensamento fenomenológico, existencialista e marxista presentes em toda a obra de Jean-Paul Sartre, de maneira a poder visualizar um todo coerente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOËCHAT, Neide Coelho. História e Escassez em Jean-Paul Sartre. São Paulo: EDUC: FAPESP, 2011.

MARX, Karl e ENGELS, Firedrich. A ideologia Alemã. Tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007.

SARTRE, Jean-Paul. A puerta cerrada. La puta respetuosa. Traducción de Aurora Bernárdez. Buenos Aires: Losada, 2010.

________. A Transcendência do Ego. Tradução de João Batista Kreuch. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

________. O Existencialismo é um humanismo. Tradução de João Batista Kreuch. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

________. O que é subjetividade? Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

________. O ser e o nada: Ensaio de uma ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 22. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

________. Crítica de la razón dialéctica I. Traducción de Manuel Lamana. Buenos Aires: Losada, 2011.

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Epiphania na Casa dos Budas ditosos – erotismo e redenção

Por Erivan Silva*                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  “como tinha razão o Nelson Rodrigues: se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém”

– A Casa dos Budas ditosos, pág 52

Enquanto tu morrias eu te abraçava numa fúria alagada, numa sórdida doçura, minha alma era tua? o desejo era demasiado para a carne, que grande fogo vivo insuportável, que luz-ferida, que torpe dependência uma outra Hillé sussurrava muito fria e altiva, uma outra Hillé fingindo mansidão e langor, roliça, passiva, perla sobre o fastídio de los mármores.

Me queres?

Claro.”

                                                            – A obscena Senhora D., pág 54

SONNETO DO COITO NA PENUMBRA [1627]

Em pleno “frango assado” está o casal

A xota, penetrada, se arreganha.

O pau, indo e voltando, dá signal

de que ja vae gozar onde se banha…

– Poesia Vaginal, pág 67




Eu sou daqueles que dizem que leitura erótica é essencial. Leiamos as ficções, as aventuras e o velho maniqueísmo como pano de fundo de toda história de herói. Mas jamais nos esqueçamos da nossa humanidade, dotada de sexualidade, de fantasias sexuais, de desejos ocultos que a ninguém revela. Confesso que a literatura erótica só me atraiu de uns poucos anos para cá. Até então, como todo garoto, o conformismo era uma revista Playboy; hoje, nada mais vulgar. Não, eu gosto da cena, das palavras, da imagem que criamos só para nós fazendo sexo com livros…

Lembra do Leoni?

Noite e dia se completam, no nosso amor  ódio eterno

Eu te imagino, eu te conserto, eu faço a cena que eu quiser

Eu tiro a roupa pra você, minha maior ficção de amor

Eu te recriei, só pro meu prazer

É disso que estou falando: erotismo sem vulgarização; sedução sem canalhice. Essa literatura é rara mas pode ser encontrada.

Octávio Paz resume sua “geometria passional” com as seguintes palavras: “O sexo é a raiz, o erotismo é tronco, e o amor é a flor”. Seguindo o raciocínio do Octávio Paz, Gabriel Liiceanu, no seu livro Da sedução diz:

(…) Octavio Paz criou, como ele mesmo chama, uma “geometria passional”. Compartilhamos, seguramente, com uma parte do mundo vivo – e esta é a base onde se assenta a “geometria passional” – a sexualidade. Mas ao lado deste fenômeno, que é “o mais antigo, o mais vasto e essencial”, e, igualmente, “a fonte primordial”, existem outros dois fenômenos que são “formas derivadas do instinto sexual – cristalizações, sublimações, perversões e condensações que transformam a sexualidade e, muitas vezes, a fazem irreconhecível.” Esses dois fenômenos, que não podem ser encontrados senão no homem., são o erotismo e o amor. (…) O erotismo é a sexualidade domesticada no nível da espécie humana. (…) Já que é “flecha atirada ao transcendente”, o erotismo encontra o ideal e pode evoluir igualmente bem para a castidade ou para a libertinagem. (…) o amor, representa a focalização extrema da sexualidade, o seu ponto mais afiado, o lugar em que o sexo se encarna, como unidade inconfundível de carne e espírito, na personalização suprema. Ao contrário do erotismo, cujo o objeto pode demorar-se no espaço da in-diferença (qualquer indivíduo, no espaço sexual, pode ser substituído por outro), o amor junta a passionalidade numa pessoa única objeto erótico único nascido no encontro entre predestinação e livre-arbítrio. Ambos eram predestinados um ao outro desde o começo dos tempos e, igualmente, se escolhem livremente. (1)

Eu acho que em literatura erótica encontramos esses dois fenômenos, isto é, erotismo e amor. Eles se confundem inclusive etimologicamente; pode-se dizer que amor enquanto desejo do objeto amado é erótico; e o erótico é amor desejante. A ontologia do amor leva a declaração básica de que o amor é único (2) mesmo que seja entendido em caráter modal como ágape, philia ou eros. Há ainda quem queira depreciá-lo somente ao nível da epithymia (desejo) isso em conotações sensuais. Ora, mesmo encarado pelos moralistas de plantão ainda assim estamos falando de amor, amor indivisível em sua ontologia. O amor é a liberdade e o seu avesso. O desejo sexual humano não pode ser transferido. A pessoa que deseja Jane, é absurdo perguntar  “porque não Elizabeth? Ela também serve”. Afinal, o que ele quer é uma ação da qual Jane é constituinte e não só um instrumento. É verdade que Elizabeth poderia ser trocada por Jane, como Lia foi trocada por Raquel na história do casamento de Jacó no Antigo Testamento (Gn 29.21-28). Mas o desejo de Jacó não foi transferido para Lia. (3) desejo não se transfere; sensualidade, erotismo, nada disso é transferível.

Agora, falando de A Casa das budas ditosos, por que epiphania? Porque foi a palavra que encontrei para descrever minha sensação ante a leitura do livro. Do ponto de vista filosófico epiphania significa uma sensação profunda de realização, no sentido de compreender a essência das coisas. Ou seja, a sensação de considerar algo como solucionado, esclarecido ou completo. (lit. manifestação de algo).

De antemão já adianto ao leitor que é impossível não se encantar pela história (real ou imaginária) narrada pelo João Ubaldo Ribeiro. Se encantar e se excitar. É bem provável que o livro será lido de “pau duro” ou de “grelo molhado”. Duvida? Faça você mesmo o teste. Melhor ainda, vou reproduzir apenas um trecho do livro para que leiamos juntos. Antes disso quero lembra ao leitor que nossa confessante tem dois interesses em mente:

1) Que todos olhem pelo “buraco da fechadura“. Assim desperta um fetichismo sexual nos leitores. Numa citação de Sartre (não lembro onde) li: “acariciar com os olhos e desejar são uma única e mesma coisa”. Na música interpretada pela Maria GaduEle me comia com aqueles olhos de comer fotografia, eu disse X**. Nossa personagem nos garante que no quesito safadeza todos somos iguais. (…) as pessoas leem romances, biografias, confissões e memórias porque querem saber se as outras pessoas são como elas. Não somente por isso, mas muito por isso. Querem saber se aquilo de vergonhoso que sentem é também sentido por outros, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto mais olham, mais precisam olhar, nunca estarão saciadas. Faz bem, é reconfortante. Porque eu tenho a convicção de que a maior parte das mulheres e homens é como eu e pensa que não, cada um pensa que é único em suas maluquices. Não é, não, somos todos iguais. (pág 130)

2) “A segunda [intenção] é provocar tesão, quero que quem me ler fique com vontade de fazer sacanagem, pelo menos se masturbando”. (pág 131)

Vamos à leitura propriamente dita:

(…) pôs a mão no meu ombro e disse “como vai você?”.

– Vou bem, vou bem. Vou nervosa.

– Nervosa?

– O que é que você acha? Minhas pernas estão tremendo.

Estavam mesmo e ele ainda demorou para fazer alguma coisa além de botar a mão no meu ombro, até que finalmente desencantou e, agarrados mesmo, fomos para o quarto que dava porta para o corredor e onde Claude tinha sua cama de casal para receber rapazes, um quarto penumbroso dentro de uma floresta de quadros, esculturas e bibelôs, com parte do teto e uma parede cobertas por espelhos. Sentamos na cama olhando fixo um no outro, eu fazendo minha melhor cara de corça no cio alcançada pelo macho, sem nem precisar muito, porque estava mesmo fora de mim de tesão. Ele me desabotoou a blusa, eu o ajudei a tirá-la, com um sorriso leve, sem mostrar os dentes e baixando os olhos. Ele me beijou bem, já tinha aprendido comigo.  E pôs a mão no facho do meu sutiã, novidade tecnológica na época, um americano que Norman Lúcia me trouxe de presente, do tipo que soltava com uma pressãozinha dos dedos. Meus dois peitos pularam livres, trêfegos e lindos como luas cheias, as aréolas rosadas quase apontando para o alto, os bicos tensamente enrijecidos, as curvas delicadas se desdobrando em mil outras sem cessar, e ele enfiou o rosto no meio deles. Não sei como, logo estávamos nus e deitados juntos e resolvi que ficaria o mais quieta possível na cama e só me mexeria em caso de emergência, para evitar uma barbeiragem mais grave, enquanto ele descia a boca dos meus peitos para o umbigo e finalmente lá embaixo, que foi quando eu não me controlei e segurei a cabeça dele entre minhas pernas e gozei tão profundamente que achei que ia morrer. Quando parei de gozar, pensei que ele ia querer que eu  o chupasse também um pouco, e eu estava com vontade, mas, mal resvalei os lábios no pau dele, ele recuou os  quadris, ficou de joelhos diante de mim e me disse, encantadorissimamente, machissimamente no melhor sentido:

– Abra as pernas para mim.

Eu abri, ele curvou meus joelhos para cima, afastou minhas coxas ainda mais – ai, que momento lindo! – , encostou a glande  bem no lugar certo, agarrou meus ombros com os braços em gancho pelas minhas costas, abriu a boca para me beijar com a língua enroscada na minha e, num movimento único e poderoso, se enfiou em mim. Senti uma dor fina e quase um estalo, cheguei a querer deslizar de costas pelo colchão acima, mas ele somente enfiou-se em mim até o cabo e ficou lá dentro parado, me segurando forte, para só então terminar o beijo, erguer o tronco e começar a me foder, olhando para a minha cara. E então, com a expressão de homem mais bonita que já vi na minha vida e exalando um cheiro para sempre irreproduzível, gozou muito fundo dentro de mim e eu senti, senti mesmo, aquele jato me inundar gloriosamente aos borbotões, aquela pica grossa e macia pulsando ereta dentro de mim, ai! Eu não gozei, mas só tecnicamente, porque de outra forma gozei muito naquele momento, não posso descrever minha felicidade, minha profusão de sentimentos, me sentir mulher, me sentir fodida, me orgulhar de ter sido esporrada em meio a meu sangue, sem fricotes, como uma verdadeira fêmea deve ser inaugurada por um verdadeiro macho. Já li muitos livros eróticos e pornográficos,a maior parte detestável, já vi tudo, mas nada pode espelhar aquele instante, nada, nada, nada, nada, até hoje me masturbo pensando naquela hora, minha fantasia perfeitamente realizada. (4)

Confesse caro(a) leitor(a) é uma leitura fantástica não? É aproveitável alguma coisa em tipos de leitura como esta? Sim. Primeiramente a sutileza do autor nos deixa com uma incógnita: a mulher que tem 68 anos de idade (quando narra o ocorrido quando era jovem) e se apresenta apenas com as iniciais C.L.B é real ou fictícia? Ela (?) mesmo responde (…) é irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar. Ainda encontrei três máximas com o livro:

1. É muito difícil encontrar alguém que não tenha alguma grande obsessão sexual, ou mais comumente, várias, geralmente reprimidas das formas mais inesperadas.

2. É muito difícil encontrar alguém que não se possa seduzir (…) É possível seduzir toda e qualquer pessoa.

3. Ninguém é alguma coisa de forma absoluta. Homem e mulher são construções históricas.

Levaria um certo tempo abordar cada um desses pontos, e serão abordados separadamente em outra publicação ou numa atualização desse mesmo texto por mim escrito. Como uma primeira proposta creio que até aqui está bom. Agora evoco e deixo como dica a Diva Hilda Hilst (1930-2004). H.H é reconhecida como um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Em uma entrevista em que foi interrogada da seguinte forma: Para escrever sobre sexo o escritor necessita de uma vida sexual extremamente variada? Hilst responde: Eu acho que não, porque o poeta não precisa passar pela morte ou por um montão de cadáveres para falar sobre ela. Você já tem um conhecimento da coisa, não precisa viver tudo para escrever. No meu caso específico, tive todas as alegrias sexuais possíveis.(5)

É na literatura erótica que tenho essa manifestação (epiphania) do humano, na nudez encontro a redenção da sensualidade. Nudez em nossa cultura tem assinatura teológica nos dirá Agamben (6) Não gosto das filosofias que desprezam o corpo. “Em geral, o erro da filosofia é se afastar da vida” (7) e isso inclui afastar-se do próprio ser integral. “Detrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um amo mais poderoso, um guia desconhecido, que se chama ‘o próprio ser’. Habita em teu corpo; é teu corpo(8) Eu tenho um corpo erótico e uma alma amante/desejante. São os dois fenômenos que nos fala Octávio Paz. Eles se encontram em mim. Sou erotizado e redimido seja nos traços de Milo Manara (9) seja no HQ da vida real de Chester Brown (10), na leitura de Bukowiski, na perversão de Hilda Hilst, na Vênus de quinze anos de  Swinburne (11) ou em Anna P.(12)… O importante é ser humano, demasiado humano.

Sexo é brinquedo 

Amar é brincar. Não leva a nada. Não é para levar a nada. Quem brinca já chegou. Fazer amor com uma mulher ou com um homem é brincar com seu corpo. Cada amante é brinquedo brincante. “Creio na ressurreição do corpo”: não é a esperança de um milagre escatológico no fim dos tempos. É uma possibilidade de cada dia. Os sentidos precisam sair do túmulo onde os deveres os enterraram. (…) corpo brincante: é nele que acontece a alegria! (13)

 

* Erivan Silva fez teologia e história, atualmente faz licenciatura no UNIFAI. Escreve periodicamente em seu Blog ( http://erivan82.blogspot.com.br)
** A História de Lili Braun – Música composta por Chico Buarque e Edu Lobo.

Notas

 (1) LIICEANU, Gabriel. Da Sedução. São Paulo. Ed Vide Editorial, 2015 pág 73-75.
 (2) TILLICH, Paul. Amor, poder e justiça. São Paulo. Fonte Editorial, 2004. pág 37.
 (3) SCRUTON, Roger. Rosto de Deus, o. São Paulo Ed É Realizações, 2012. pág 137.
 (4) RIBEIRO, João Ubaldo. Casa dos Budas ditosos, A. Rio de Janeiro Ed Objetiva 1999. Pág 77-79.
 (5) DINIZ, Cristiano (org). Fico besta quando me entendem – entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo Ed Biblioteca Azul, 2013. pág 141.
 (6) AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Belo Horizonte Ed Autêntica 2014. pág 91. Nas palavras de Agamben “A nudez, é inseparável de uma assinatura teológica. Todos conhecem a narrativa do Gênesis segundo a qual  Adão e Eva, após o pecado, percebem pela primeira vez estarem nus” (…)
 (7) BATAILLE, Georges. Erotismo, O. Belo Horizonte Ed Autêntica 2013. pág 36.
 (8) NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra. Rio de Janeiro Ed Petrópolis 2008. pág 51.
 (9) Milo Manara é um dos maiores desenhistas de Hq sensual do mundo. Alguns desenhos do artista italiano podem ser visto aqui http://papodehomem.com.br/milo-manara-mulheres-e-nanquim/ Manara tem um site oficial http://www.milomanara.it/ cosultados em 24/06/2016 ás 18h42min
 (10) Autor do Hq Pagando por sexo, publicado no Brasil pela Ed Martins Fontes
 (11) SWINBURNE, Charles. Venus de quinze anos. São Paulo Ed Hedra, 2014.
 (12) ANNA P. Tudo que eu pensei mas não falei na noite passada. São Paulo Ed Hedra 2014.
 (13) ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola.  São Paulo. Ed Planeta, 2008. pág 80.

Ainda foram consultados:

MATTOSO, Glauco. Poesia Vaginal – Cem sonetos sacanas. São Paulo Ed Hedra 2015.

CAROTENUTO, Aldo. Amar trair – quase uma apologia da traição. São Paulo. Ed Paulus 3ª ed 2011.

STOLLER, Robert. Perversão. São Paulo Ed Hedra, 2014.

HILST, Hilda. Com os meus olhos de cão. São Paulo. Ed Biblioteca azul 2001.

HILST, Hilda. Cartas de um sedutor. São Paulo Ed Biblioteca azul, 2014.

HILST, Hilda. Obscena senhora D., A. São Paulo Ed Biblioteca azul, 2016.

MUCHEMBLED, Robert. Orgasmo e o Ocidente, O. São Paulo Ed Martins Fontes, 2007.

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Questões de gênero, ações afirmativas e performatividade a partir de perspectivas fenomenológicas

Por André Alves (*)

A Fenomenologia é para mim uma filosofia ou método filosófico (ou por que não dizer ao mesmo tempo filosofia e método de filosofar?), que devolve o filósofo à vida. A proposta de um “retorno às coisas mesmas”, embora em um primeiro momento soe de forma abstrata, como aliás, a fenomenologia me pareceu como algo frio e distante, como filosofia analítica dura, durante alguns anos, mesmo quando eu já tinha passado en passant ao estudar a filosofia de Sartre, tornou-se algo muito palpável nessa oportunidade de estudá-la um pouco mais relendo os textos de Husserl e de Merleau-Ponty e assistindo as aulas do professor Wesley Dourado. Percebi o quanto a fenomenologia nos devolve às coisas concretas, mostrando que suspender o juízo e as teorias, sem excluí-las, nos abre para novas possibilidades de conhecimento e de sentido.

Pensei em tratar aqui de algumas questões que durante muito tempo foram rejeitadas pela filosofia, e quiçá, podem ter por meio da perspectiva fenomenológica, para problematizar as concepções consideradas fixas pela sociedade e até mesmo pelas ciências, uma busca de novas possibilidades de sentido. Assim, pensei, de forma ensaística, fazer algumas relações da fenomenologia, ou melhor, buscar pensar fenomenologicamente, no que se refere as questões de gênero, seja o feminismo, as afirmações de orientação sexual, teoria queer, etc. Não pretendo com isso, extrair algum tipo de verdade absoluta que possa vir a resultar das considerações que faço, e tampouco atribuir alguma originalidade neste feito, já que há pessoas nas universidades e na própria sociedade pensando seriamente nestas questões. Ou, diria ainda melhor, vivendo-as realmente em sua própria pele com os preconceitos e opressões que normalmente são impostos às mulheres, aos homoafetivos, etc.

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir, 1908-1986. Filósofa existencialista.

 

Simone de Beauvoir, embora considerada como filósofa existencialista, foi uma estudiosa de Edmund Husserl, e ao lado de Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty, escreveram muito sobre fenomenologia e a partir de perspectivas fenomenológicas. Aliás, o existencialismo, é uma corrente filosófica que se desdobra a partir da fenomenologia, tanto em Heidegger, quanto em Sartre e de Beauvoir. Em seu texto O Segundo Sexo, de Beauvoir disse que “não se nasce mulher, mas torna-se mulher”. Talvez uma crítica possível de ser feita a alguns tipos de feminismos, seja o fato de que perpassa no imaginário das feministas uma certa representação de feminilidade, como se tal representação fosse estanque e fixa. De um lado, algumas feministas insistem que a mulher para se afirmar deve se parecer mais bruta, mais máscula, mais afeita ao poder, donas de seus próprios corpos e por isso condenam mulheres que expõe seus corpos a serviço do mercado, etc. Outras, por outro lado, dizem que a mulher possui uma característica de sentimentos mais aguçada, mais afeita a subjetividade, e que, portanto, a mulher deve se posicionar de forma a preservar estas características mais suaves que o homem não possuiria.   Não sou obviamente a melhor pessoa para dizer o que é ou não ser mulher, já que não sofro socialmente os preconceitos e opressões que a mulher vive. Além disso, posso correr o risco aqui de estar apenas retratando não o feminismo propriamente dito, mas apenas um certo tipo de conhecimento bem superficial de feminismo que eu possuo. E é possível que se uma mulher lesse que eu, homem, escrevendo sobre feminismo, seria uma impossibilidade, por não sentir e viver na pele o que elas vivem. Insistindo, ainda que sob este risco de uma visão turva, o que tento colocar aqui, é que tanto um lado como outro, com suas motivações e visões legítimas, sofrem de imagens pré-determinadas do que é “a mulher”. Ora, todas estas características podem ser encontradas tanto em homem, quanto em mulher. O que quero dizer, que estabelecer critérios do que é ou não ser mulher, se constitui numa forma dada e pré-estabelecida social e culturalmente, e que pode ser limitante das diversas possibilidades de ser mulher. Ou seja, é preciso ir a cada sujeito, a cada consciência e na singularidade de cada pessoa, sem se deixar predeterminar-se absolutamente a um único modelo. É claro, que é na intersubjetividade que as mulheres se constroem e se constituirão pelos olhares umas das outras, e também pelos olhares dos homens, para usar uma perspectiva sartreana do olhar, buscando suas identidades conquanto acreditem fazer parte desse grupo chamado “mulher”. Porém, ser mulher, conquanto são seres humanos e não animais, não é algo que está fechado numa determinada definição ou predefinição. Por isso, um retorno as coisas mesmas, suspendendo o juízo do que supostamente se entende por “ser mulher”, podem abrir diversas possibilidades. A ideia de corpo próprio em Merleau-Ponty talvez abra aqui alguma brecha para esta riqueza de significações a que proponho:

O equipamento psicofisiológico deixa abertas múltiplas possibilidades e aqui não há mais, como no domínio dos instintos, uma natureza humana dada de uma vez por todas. O uso que um homem fará de seu corpo é transcendente em relação a esse corpo enquanto ser simplesmente biológico. Gritar na cólera ou abraçar no amor não é mais natural ou menos convencional do que chamar uma mesa de mesa. Os sentimentos e as condutas passionais são inventados, assim como as palavras. Mesmo aqueles sentimentos que, como a paternidade, parecem inscritos no corpo humano são, na realidade, instituições.  (MERLEAU-PONTY, 2011, p.257)

A constituição humana de um ego transcendental, isto é, voltado para fora de “si mesmo” e sempre superável a si mesmo, é também superável a qualquer conceito pré-determinado. Portanto, os movimentos de afirmação, sejam eles feministas ou LGBT’s podem ter na fenomenologia subsídios para um constante reinventar-se, não precisando se fixar a noções de “feminino” e “masculino”, como se já estivesse plenamente definido o que são tais conceitos. Conforme o texto de Merleau-Ponty, não passam de instituições e convenções.

Não quero com isso culpabilizar os movimentos afirmativos, ao contrário, os movimentos agem assim porque participam de uma sociedade patriarcal e machista que estipulou o que entende ser homem e ser mulher, o que é ser masculino e ser feminino. O que faz com que as pessoas para se afirmarem acabam por aderir a determinado tipo de comportamento, a um jeito de falar, a um jeito de se vestir de maneira caricata e estereotipada. A meu ver, todos nós sofremos disso, de uma forma ou de outra. E creio que a isto relaciona-se a intersubjetividade de que Husserl fala: nos constituímos a partir dos outros. Porém, é preciso sempre fazer a redução eidética, ser capazes de enxergar o fenômeno, entender o mundo vivido e saber que minha constituição enquanto ser humano transcende a este modo de ser.

A redução eidética enquanto um esforço para retornar ao mundo onde as coisas são dadas, fará com que eu possa ver a partir de que momento me tornei o que tornei, e com isso abre-se um leque para transcender, para ver que nada está escrito nas estrelas no que se refere a minha possibilidade de ser. Na medida em que a consciência é sempre intencional, isto é, consciência de alguma coisa, percebe que do ponto de vista biológico, tudo o que eu tenho de original e “definitivo”, é apenas o corpo. Apenas esta constituição biológica. Que aliás, até mesmo, ela, muda com o tempo. Deixa de ser. A vida psicofísica, para usar uma expressão de Merleau-Ponty, aponta que há algo além disso. A consciência que vai recebendo estes conteúdos externos que vão constituindo o ser singular, está sempre na eminência de poder dar a estes conteúdos e aos objetos externos novos significados e novas possibilidades de existência.

Ainda falando sobre as questões de gênero, a filósofa contemporânea feminista e teórica da teoria queer Judith Butler, utiliza o conceito de performatividade, para superar a ideia de gênero. Embora Butler seja considerada uma pós-estruturalista, considero, sem conhecer profundamente a respeito do tema, que a ideia de performatividade tem muito de uma perspectiva fenomenológica, já que performar é um fenômeno de ser. Performance é uma palavra da língua inglesa e o verbo “performar” é uma invenção, um neologismo e um aportuguesamento. Performar é agir de determinada forma escolhida dentro de uma determinada situação dada. Mais do que desenvolver papéis como o de homem ou de mulher, o de feminino ou de masculino, construímos uma vivência. Essa vivência poderá ser descrita fenomenologicamente, isto é, de que maneira eu vivi, como isto me a

Judith Butler

Judith Butler, 1956. Filósofa.

 

pareceu, como eu percebi o mundo e as coisas e de que maneira eu reagi a esta percepção do mundo. Performar não é agir forma pré-determinada, performar é uma maneira de ser, de sentir, de viver, de perceber o mundo dado. Performar é ser capaz de interagir no mundo. É o mundo vivido, a lebenswelt husserliana. Entendo que este conceito consegue dar conta da infinita pluralidade ego transcendental.

Concluindo este ensaio, espero ter apontado algumas questões que podem ser abordadas a partir da perspectiva fenomenológica, sobretudo no que se referem as questões de gênero e ações afirmativas. O que apontei não são erros destes movimentos, e sim, maneiras de ser dos sujeitos dos movimentos que, numa busca de identificação, acabam, por vezes, a limitar possibilidades de sentido, de significado e de modos de ser. É claro, que estas pessoas estão achando novos sentidos e novos modos de ser e demonstrando ao mundo e à sociedade que existe uma pluralidade de gêneros. Mas quando se estabelecem estereótipos de masculino, de feminino, de gay, etc., pode-se cair num sério risco delimitador de possibilidades e sentido. Não é incomum, entre alguns homoafetivos por exemplo, um certo preconceito com bissexuais. Não é incomum entre feministas, aquelas que excluem mulheres negras de suas preocupações feministas.

Costumo verificar que o fenômeno da sexualidade humana possui três dimensões: biológica-sexual, sexualidade ou orientação sexual e gênero. A primeira, a biológica-sexual incontestavelmente referem-se a órgãos, dos quais só existem dois para definir sexo: machos tem pênis e fêmeas tem vagina. Para superar estas questões físicas, a medicina cirúrgica tem tido grandes avanços adaptando a contento de pacientes que desejam mudar de sexo. A segunda, chamada de sexualidade ou orientação sexual, refere-se a desejos e prazeres, constituindo-se em área psico-fisiológica de máxima complexidade, e que se referem ao ato sexual e maneira que nos sentimos em relação a ele. Neste campo existem homossexuais, heterossexuais e bissexuais. Além destas, existem as mais curiosas formas de desejo que a depender do momento moral da sociedade, ora são consideradas perversões ora são consideradas normais. Aqui tanto o elemento físico quanto social, são formadores. Daí as questões morais serem de grande conflito e tensão dependendo do tempo histórico, da cultura, etc.  Por último, verificamos a questão de gênero, a qual refere-se a maneira como performamos na sociedade: trajes, trejeitos, relacionamentos amorosos, etc. Neste item, o nível de complexidade e completa ausência de valores fixos, deve ser considerado em tempos atuais cuja a metafísica, a religião tradicional e a moralidade imposta socialmente  já não possuem a palavra final sobre os indivíduos.

Enfim, o que o proponho no meu artigo é que há uma pluralidade que pode muitas vezes ser ofuscada nos próprios movimentos de ações afirmativas e que a perspectiva fenomenológica e o conceito de performatividade possam ser contributivos para um novo olhar que evite tal ofuscamento.

 * André Alves é formado em Filosofia pela UNIFAI-SP, pós graduação  lato sensu em Filosofia e Humanidades, Teoria e Filosofia do Direito pela PUC-Minas, Filosofia e Pensamento Político Contemporâneos pela UNIFAI-SP e Direito Tributário pela PUC-Minas. É também bacharel em Ciências Contábeis. Autor de “Fé e Angústia: Análise do conceito de má-fé na filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre” pela Fonte Editorial e co-autor de “ICMS e Obrigações Acessórias em telecomunicações” pela IOB-SAGE.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 3a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

TIBURI, Márcia. Judith Butler: Feminismo como provocação. Revista Cult, São Paulo, Ano 19, Edição Especial n. 6, Janeiro. 2016.

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Por favor!

Por Geovany Hércules

por favor

Em flor de lótus ele sibila a palavra sagrada Om em busca do nirvana para pôr um fim ao samsara e extinguir o seu carma.

No confessionário sentindo-se culpado ele segreda os pecados ao padre e segue ao genuflexório para pagar por eles com um rosário e quinze Ave-Marias.

De joelhos no chão frio ele pede perdão a Deus com medo do inferno enquanto barganha a sua salvação dando dez por cento do seu salário para o pastor.

Na mesa de um bar com amigos eu celebro a vida e os seus mistérios. Não acredito e não quero que nada e nem ninguém me alivie da culpa.

De duas uma, ou levarei ela para o túmulo ou o tempo acabará com a sua importância. Não há remédio e nem paliativo.

Não quero pureza, não quero perdão, não quero salvação, eu quero ser humano, e por ser humano eu quero viver por completo, em plenitude com tudo que é inato a minha condição e natureza.

E por favor, não me acabem com o mistério. Há quem goste de dar sentido pra tudo, já eu gosto das brechas, das frestas, dos furos. Tem quem goste de Nolan, mas esse não sou eu.

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Chateaubriand e os tempos da simplicidade para entender a crise política atual

Por Paulo Sanda

assis-chateaubriand-na-inauguracao-da-tv-em-1950   Em sua época, Assis Chateaubriand foi realmente “o rei do Brasil”, como no título do livro de Fernando Morais. Dono de um império de comunicações entre os anos 30 e 60, Chatô era temido por políticos e empresários. Com seus jornais e revistas, uma das quais,  a famosa O Cruzeiro, Chatô erguia ou destruía reputações e empresas.

Mas Chatô não foi um gangster, se bem que em algumas passagens de sua vida a violência deixou as letras para se tornar também físico e com cheiro de pólvora. O fato é que entre outras obras devemos à ele coisas, como o MASP por exemplo. Chatô criava um projeto, como foi o MASP e Asas para Juventude, para as quais os empresários eram “convidados” a abrir suas carteiras. E as contribuições eram generosas, pois eles MASPsabiam que se não o fizessem rapidamente, suas empresas e seus produtos sofreriam ataques difamatórios e o prejuízo seria certo. Com a classe política não era diferente. Ai do político que não cedesse aos acordos desejados por Chatô! Seu império de cerca de 100 jornais, revistas, rádios, e até o primeiro canal de televisão do Brasil aparentemente foi construído na base da chantagem e relações promíscuas com figuras como Getúlio Vargas por exemplo. O que dizer de uma figura tão asquerosa?

Posso dizer “Simples!” e “Que saudades do Chatô!”. Ele foi uma figura de um tempo mais simples. Seu maior desafeto era tão somente o empresário Francisco Matarazzo Júnior.Francisco Matarazzo Júnior (Capa) Ele atirou contra estudantes, urinou numa garrafa durante a recepção da rainha da Inglaterra, chantageou muita gente, etc. Mas era uma época ingênua, pois tudo evolui. Por exemplo, quando em uma investigação descobre-se ou desconfiasse que uma pessoa possui uma propriedade que não deveria ter, algo que talvez seja fruto de corrupção por exemplo, o que se faz?

Opção 1. A investigação continua no mais absoluto sigilo, inclusive evitando-se, se possível, que o suspeito saiba para evitar que ele tome qualquer providência para se livrar de provas que o incriminem. Em outras palavras, segue-se a trilha do dinheiro até a fonte, pois a partir dela, pode-se então comprovar ou não o crime.

Opção 2. Divulga-se por jornal, revista, rádio e principalmente televisão que existe a suspeita, mesmo sem haver provas reais que possam levar a uma prisão e processo judicial.

Imagino que se você tem um mínimo de bom senso deve ter escolhido a opção 1. Por outro lado, se já sacou do que estou falando, talvez imagine que a 2 seja a mais correta. Se for este o caso, saiba que você está contaminado, sua capacidade de raciocínio foi gravemente danificada e deve procurar rapidamente um filósofo para conversar. Acrescente também um bom bacharel em direito e por fim um religioso sério.

A-Escola-de-Atenas-Foto02O filósofo vai lhe ajudar mostrando a complexidade,  vai lhe falar sobre o dualismo, por exemplo, para então evoluir para uma dialética, etc. Contudo, o mais importante, ele poderá lhe mostrar que a opinião pública é uma peça de ficção, pois  é resultado de uma manipulação. Talvez, usando Jean Paul Sartre, ele possa lhe mostrar que a “existência precede a essência”, e como a liberdade gera angústia, as pessoas, em geral, preferem ser movidas do que refletirem. Ficou confuso? Ótimo. Certamente depois da conversa com o filósofo você ficará ainda mais confuso e quem sabe fique tentado a pensar. É uma possibilidade aprazível.

Então você levará sua confusão a um advogado, não para processar o filósofo que lhe deixou neste lamentável estado, mas para fazer uma simples pergunta: Um juiz investiga? Quando fizer esta pergunta, por favor, me escreva, para que eu também possa entender. Afinal de contas, se o juiz investiga, quem julgará?advogado

E por fim, porque um religioso sério? Este é o mais fácil, ele deverá lhe falar que tudo deve ser resolvido com amor, que o ódio não é o caminho correto e mais ainda, se for cristão, poderá lhe lembrar de João 8.7 ““Aquele que estiver sem pecado que atire a primeira pedra.”religiosos

Pois convenhamos, a maior parte de nós se submetido ao pente fino que que está ocorrendo não sairia sem um arranhão, pode ser que não fossemos presos, pois no fim seriam apenas suspeitas. Ou não. Mas se assim fosse, ou seja, se fossem colhidas provas o suficiente para um processo que no final nos considerasse culpado, tendo tido direito a ampla defesa… Bem, neste caso, por fim, teríamos que pagar pelo erro.

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